Quem morava na cidade baixa e estudava na cidade alta, compreendeu que para "subir" na vida era necessário encarar a escada com seus setenta e três degraus.
Igualmente na vida, a subida inicia com passos curtos e cuidadosos em degraus estreitos, contudo, na metade da jornada, degraus e passos se alargam e mudam o ritimo das passadas.
Em alguns momentos a vida exige uma pausa, um descanso, uma reposição de energias. Quem passava pela escada poderia parar e degustar o famoso tacacá da dona Iracema.
Quem brincou na escada, aprendeu com os meninos loucos que desciam sentados em suas tábuas turbinadas com parafina ou sabão grosso que a vida tem suas aventuras e seus tombos, mas devemos sempre seguir em frente.
Quem na escada apreciava o fim de tarde, observava o senhor Hugo Caliri descer e subir vagarosamente os degraus em seu corriqueiro ir e vir da sua casa até a praça da matriz e com ele percebeu que um dia a velhice chega e o ritimo da vida desacelera.
O tempo passou, eu concluí os estudos básicos, dona Iracema se mudou, os meninos cresceram, senhor Hugo nos deixou e a escada foi ficando esquecida, triste na escuridão do abandono, não mais ria como antigamente.
Enfim, a vida é feita de decisões. E com a decisão do poder público municipal de revitalizar a escada, ela voltará a sorrir, iluminada e em cores vivas, vivas como as boas lembranças de quem viveu a infância na cidade baixa.